Revista Diario
Ano II n° 56
Domingo, 10 de junho de 2007

Adequado à postura do profissional contestador de cinema, João Inácio, que trabalha há 10 anos em produção e exibição de cinema, não hesitou em colocar o dedo na ferida moral da questão da adoção: com “Shala”, um curta (tristemente baseado em fatos reais) que disseca o delicado aspecto da rejeição, ao contar a história de um menino que se recusa a se livrar de sua boneca. A ousadia fez bem a ele, que, no final de 2006, foi o Roteirista Premiado no Concurso de Apoio à Produção de Obras Cinematográficas Inéditas, promovido pelo Ministério da Cultura, justamente com sua obra “Shala”, escolhida entre 20 vencedores de 981 inscritos de todo o Brasil. O próximo passo, mais aguardado, é transpor o roteiro para as telas de cinema.
O que é mais difícil de executar quando se fala em sétima arte?
Conseguir os recursos do filme. O cinema engloba todas as artes, daí temos nossos custos multiplicados por sete, tornando a produção bastante onerosa.
Por que o nome Shala?
Shala é o nome da boneca do personagem principal, que funciona muito parecido como o Sr. Wilson de “Naufrago” e a Maria Eugênia do Bam-Bam.
Qual a sua intenção em abordar a questão da rejeição das crianças adotadas?
Esse é um tema nunca abordado pelo cinema, é uma ferida da sociedade que ninguém quer lembrar que existe, mas precisamos repensar de como garantir o direito básico dessas crianças de ter uma família, pois elas estão crescendo dentro de abrigos e sendo ignoradas pela sociedade.
O que contam os fatos reais ocorridos em Belém em que Shala foi baseado?
É o caso de um garoto de 6 anos de idade que passou por três processos de adoção, em todos ele foi rejeitado e devolvido. Os pais adotivos alegaram motivos extremamente preconceituosos. Há muitos outros casos de devolução de crianças adotadas e os mais desumanos motivos; que pode ser pela cor da pele, comportamento ou mesmo por uma necessidade especial que só venha se manifestar na criança depois da adoção.
O que falta para o filme ir para as telas?
Já conseguimos quase metade dos recursos financeiros fora Pará. Agora estamos aguardando a contrapartida do Poder público, pois o filme é todo rodado em Belém e tem na sua equipe mais de 50 artistas e técnicos, todos paraenses.
Qual sua a visão como cidadão de famílias que rejeitam seus filhos?
Vejo como famílias que procuram na adoção resolver problemas e carências pessoais, em vez de promover o direito de uma criança de ter amor e ter uma família.
Por ser paraense você sente essa obrigação de retratar as peculiaridades da nossa região?
Fazer filmes em Belém já é ser regional, o artista não pode estar algemado ao pitoresco da sua região. As peculiaridades podem ser uma forma de situar o enredo. Acredito que o mais importante é contarmos as nossas próprias histórias, mas de forma universal.
Além de dinheiro, o que mais se ganha ao ser contemplado pelo Minc?
Credibilidade. O prêmio do Minc é o mais respeitado e concorrido concurso de roteiro do país.
O que Shala te trouxe de lição?
Que todo esforço para conseguir realizar uma verdadeira obra de arte é válido, pois, como disse o corredor Steve Prefontaine, “dar menos que seu melhor é sacrificar o dom que você recebeu.”
O que o cinema paraense precisa para alçar vôos mais altos?
Sem dúvida, que o Estado e o Município realizem editais como os do Minc.
Para você, o que é cinema?
Cinema é mais do que diversão, é, quem sabe, do principal instrumento paratransformarmos a sociedade em algo melhor.
Que filme brasileiro mais te chamou a atenção?
“Cidade de Deus”, de Fernando Meireles, o qual pretendo utilizar a mesma técnica de preparação de atores para meu filme.
E estrangeiro?
“Dançando no Escuro”, de Lars Von Trier, que me ensinou como abordar um tema com muita sensibilidade e provocar reação no espectador.
Se você não fosse cineasta, o que seria?
Uma pessoa muito infeliz.
Qual cena real de Belém deveria estar fora de circuito?
O fechamento das salas de cinema.
A pirataria está na cara e na casa de muita gente. Qual sua opinião sobre essa problemática?
Não quero me comprometer, mas faço minhas as reflexões de Walter Benjamin.
Hoje, que filme pra você renderia mais que o Oscar?
Quem sabe um longa- metragem paraense feito apenas por paraenses.